Internações por condições sensíveis à atenção primária: uso da ferramenta como indicador de desempenho da APS em Florianópolis.

Internações por condições sensíveis à atenção primária: uso da ferramenta como indicador de desempenho da APS em Florianópolis.

As taxas de internações por condições sensíveis à atenção primária têm sido utilizados como um dos instrumentos para avaliar o acesso da população e a qualidade dos serviços prestados pela atenção básica. Essa experiência avalia a qualidade da atenção à saúde em Florianópolis com a expansão Estratégia Saúde da Família entre 2005 e 2011 e sua escolha como ordenador do modelo de Atenção Primária do município tendo como parâmetro a proporção de internações por causas sensíveis ao cuidado primário.

Dados da Experiência

Local da experiência: 
Florianópolis (SC)
Qual foi a experiência desenvolvida? Sobre o que foi?: 

Condições Sensíveis à Atenção Primária (CSAP) são problemas de saúde atendidos por ações típicas do primeiro nível de atenção e cuja evolução, na falta de atenção oportuna e efetiva, pode exigir a hospitalização. Vários estudos demonstram que altas taxas de internações por condições sensíveis à atenção primária estão associadas a deficiências na cobertura e acesso aos serviços e/ou à baixa resolubilidade da atenção primária para determinados problemas de saúde. Trata-se, portanto, de um indicador valioso para monitoramento e a avaliação deste nível de atenção.

A prática de monitoramento das internações sensíveis à atenção primária foi iniciada em Florianópolis há 5 anos, tendo sido feita até o presente momento anualmente. O período avaliado está compreendido entre os anos de 2005 e 2011, quando a SMS conduziu uma forte expansão no número de equipes de saúde da família com conseqüente aumento de cobertura populacional pela ESF em proporções superiores as taxas de expansão do Estado e do país. Em 2005 a cobertura populacional pela ESF era de 44,3%, progredindo para 89,3% no final de 2011. No mesmo período em Santa Catarina esse aumento foi de 59% para 70,4% e no País de 38,9% para 53,4%.

Paralelamente à expansão das equipes e conseqüente cobertura populacional nos dois últimos anos estão sendo realizadas intervenções em toda a rede de APS junto ao processo de trabalho das equipes de saúde da família objetivando ampliação do acesso aos serviços de saúde e o uso de ferramentas institucionais de planejamento em todas as unidades de saúde objetivando a qualificação dos serviços. Dentre as medidas de ampliação de acesso destacam-se as medidas de organização do primeiro contato do usuário com os serviços de saúde onde priorizou-se a instituição de medidas de desburocratização do atendimento como a diversificação das oportunidades de entrada, contato com a equipe e aumento das ofertas coletivas (grupos de educação, prevenção e terapêutica em saúde). Além disso, o primeiro contato e decisões sobre atendimento foram deslocadas do pessoal administrativo da recepção do serviço para os profissionais de saúde. Dentre as medidas envolvendo a organização de agendas definiu-se a necessidade de uma maior atenção à demanda espontânea, atendimento da população por área territorial adscrita a cada equipe e formatação das agendas conforme as necessidades e demandas territoriais. Adicionalmente previu-se a ampliação da atuação clínica da enfermagem, com maior oferta de consultas por essa categoria profissional dentro da equipe.

Como funciona(ou) a experiência?: 

Além da avaliação das taxas de internação por CSAP, nos dois últimos anos incluímos o monitoramento de alguns indicadores de acesso na APS como o número de pessoas atendidas pelo município na APS e nas Unidades de Pronto Atendimento (UPAs), proporção de pessoas residentes atendidas na Unidade e taxas de encaminhamento para média e alta complexidade. Para avaliação das internações por CSAP foi utilizada a lista brasileira de internações por condições sensíveis à atenção primária e para a coleta de dados utilizou-se as bases de dados do Sistema de Informações Hospitalares (SIH/SUS), do Sistema de Prontuário Eletrônico da SMS (Infosaúde) e o software TabWin.

A análise dos dados comparativos entre 2005 e 2011 mostrou uma taxa de internação por CSAP em Florianópolis de 10,75 com queda progressiva para 7,12/1.000 habitantes em 2011. Também foram avaliadas as taxas de Santa Catarina com queda de 18,88 para 16,14/1.000 e do Brasil com queda de 17,12 para 15,27/1.000 habitante para o mesmo período. Apesar de Florianópolis apresentar já em 2005 taxas de ICSAP menores, o município apresentou o maior valor de queda proporcional (33,7%) no período avaliado, enquanto que a redução em Santa Catarina foi de 14,5% e no Brasil de 10,8%. Adicionalmente, observou-se que entre 2005 e 2011 a queda na taxa das internações por outras condições (não sensíveis à APS) foi de 9,6%, contra -33,7% das ICSAP, ou seja, uma queda 3,5 x maior. Paralelamente observou-se que a cobertura populacional das ESF em Florianópolis

Adicionalmente, foram avaliados vários dados referentes aos indicadores de acesso no município nos últimos 2 anos. Dentre esses dados ressalta-se o número de pessoas atendidas pela APS em Florianópolis, que aumentou de 1.278.516 pessoas no período entre janeiro a agosto de 2011 para 1.373.966 no mesmo período de 2012, o que representou um aumento de 95.450 atendimentos (107,4% em relação ao ano de 2011). Adicionalmente, avaliou-se o quantitativo de pessoas atendidas nas Unidades de Pronto Atendimento (UPAs) do município e observou-se que entre janeiro e agosto de 2012 houve diminuição de 13% no quantitativo de atendimentos registrado no mesmo período de 2011. Esses dados permitem concluir que a ampliação do acesso realizada na APS nos últimos dois anos refletiu da diminuição na demanda por atendimentos nas UPAs e possivelmente impactará ainda mais na diminuição das taxas de internação por condições sensíveis à Atenção Primária. 

Desafios para o desenvolvimento: 

A expansão da ESF com consequente mudança do modelo de atenção à saúde no município nos últimos anos foi acompanhada de estratégias de melhorias na comunicação com a população sobre o acesso aos serviços e projetos de educação em saúde com abordagem informativa sobre o “novo” modelo de atenção implantado no município.

Finalmente, considera-se que embora estudos nacionais tenham apontado o bom desempenho das equipes de saúde da família, o indicador Internações por Condições Sensíveis a Atenção Primária ainda é pouco difundido, sendo necessários outros estudos para generalização dos dados e aprofundamento de análises correlacionais com outras variáveis no município para adequada prática de avaliação como ferramenta de tomada de decisão.

Quais as novidades?: 

Nos últimos anos, tem-se observado o empenho das estruturas políticas governamentais em adotar a avaliação como prática regular e sistemática de suas ações. Pesquisadores em diversos países vêm desenvolvendo estudos direcionados à construção de indicadores que possam avaliar a capacidade de resolução da Atenção Primária, sendo a análise das ICSAP um dos indicadores propostos para avaliar resultado, efeito ou impacto da atenção oferecida neste nível do sistema de saúde. Os dados de desempenho da atenção primária avaliados neste estudo revelam inovações e uma perspectiva de confirmação da ESF como modelo de transformação concreta da prática médico-sanitária tradicional. Além disso, a prática traz o benefício inovador de monitoramento e avaliação global da APS no município, o que anteriormente a 2007 não era realizado pela gestão do sistema.

A expansão da ESF como modelo de APS para o município provocou impacto direto na ampliação de acesso, maior equidade no acesso da população às ações de saúde e maior vínculo e continuidade do cuidado pelas equipes de saúde da família o que reflete em maior resolubilidade e eficácia das ações e indicadores de saúde evidenciadas pela queda nas taxas de internações por CSAP. A longo prazo, espera-se uma melhora na satisfação de profissionais e usuários (dados ainda não avaliados), sobretudo pela geração potencial de qualidade de vida na população.

 

Outras observações/campo livre: 

Alfradique ME et al.Internações por condições sensíveis à atenção primária: a construção da lista brasileira como ferramenta para medir o desempenho do sistema de saúde (Projeto ICSAP – Brasil).Cad. Saúde Pública, Rio de Janeiro, 25(6):1337-1349, jun, 2009

Nedel FB. et al. Características da atenção básica associadas ao risco de internar por condições sensíveis à atenção primária: revisão sistemática da literatura. Epidemiol. Serv. Saúde, Brasília, 19(1):61-75, jan-mar 2010

Starfield B. Atenção primária: equilíbrio entre necessidades de saúde, serviços e tecnologia. Brasília: Unesco/Ministério da Saúde; 2002.

Autores da experiência

NomeCategoria
Dannielle Fernandes GodoiMédico
Matheus Pacheco de Andrade Médico
Jorge Ernesto Sergio Zepeda Médico
Carlos Daniel Moutinho JúniorMédico
Galeria de imagens: 

Comentários

"Olá Dannielle Godoi!

 

Muito prazer! Meu nome é Carol, sou curadora da IV Mostra e estou escrevendo para saber do seu interesse em participar do processo de curadoria da IV Mostra.

A Curadoria não é obrigatória e a ideia é que possamos conversar através da plataforma da Comunidade de Práticas, com o intuito de possibilitar que o relato da sua experiência mostre todas as suas possibilidades.

E aí, você topa? Caso positivo, preciso que você responda em até 5 dias corridos. Após esse período, precisaremos passar para um próximo relato de experiência, para garantir o acesso do maior número de pessoas.

Atenciosamente,

Carol Rodrigues e Euzeli Araújo

Oi Carol

Eu topo!

Att

Dannielle

Olá Dannielle Godoi,

Que bom que você aceitou a curadoria.

Seu trabalho tem um potencial muito grande, quando discute o processo de trabalho da ESF através das ferramentas de planejamento e avaliação.Gostaríamos que você tentasse sintetizar mais a experiência, pois como está em formato de artigo científico, está um pouco longa e cansativa a leitura.

Como o foco dos relatos de experiências para a IV Mostra/AB, busca trazer narrativas mais leves, livres e focadas nas práticas, convidamos você a falar mais sobre o seu processo de trabalho e como é feito o monitoramento e avaliação da Atenção Básica no cotidiano.

 

Atenciosamente,

 

Carol Cardoso e Euzeli Araújo

Olá Euzeli

Realizei as alterações sugeridas.

Um abraço

Dannielle

Olá Dannielle Godoi,

Que bom que você conseguiu fazer as alterações.

A parte da análise dos dados, ainda ficou um pouco extensa, veja se é possível enxugá-la um pouco mais. Verifique quais os dados são indispensáveis para um relato de experiência.

Você teria algumas imagens que possa está mostrando esse maior vínculo entre os usúarios e os profissionais? Essas imagens poderiam enriquecer mais o seu trabalho.

Lembramos, que hoje termina o processo de curadoria, mas você pode está editando o seu relato até o dia 07/11 (próxima quinta-feira).

Esperamos está contribuindo para o melhor desenvolvimento do seu relato.

Estaremos à disposição.

 

Atenciosamente,

Euzeli Araújo e Carol Rodrigues

Olá Euzeli

Enxuguei um pouco mais a parte dos resultados.

Em relação à sugestão de inserir imagens mostrando o maior vínculo entre os usúarios e os profissionais não consigo visualizar como isso seria possível. Esse é um trabalho de âmbito municipal mostrando o impacto que a expansão da ESF teve na efetividade e na ampliação do acesso da atenção básica no município. Você poderia me dar exemplos de imagens que poderiam ser usadas?

Obrigada pela contribuição!

Dannielle

Oi Danniela,

Quanto você coloca nas novidades: A expansão da ESF como modelo de APS para o município provocou impacto direto na ampliação de acesso, maior equidade no acesso da população às ações de saúde e maior vínculo e continuidade do cuidado pelas equipes de saúde da família o que reflete em maior resolubilidade e eficácia das ações e indicadores de saúde evidenciadas pela queda nas taxas de internações por CSAP. A longo prazo, espera-se uma melhora na satisfação de profissionais e usuários (dados ainda não avaliados), sobretudo pela geração potencial de qualidade de vida na população.

Penso que esse vínculo seria entre o profissional/equipe e o usuário, não é isso?

Sugeri que você colocasse algo (fotos) que pudesse demonstrar esse vínculo. Mas se você tiver uma outra forma que possa demonstrar isso, fique à vontade para fazer.

Atenciosamente,

Euzeli Araújo

Interessante ;)

Parabéns aos autores pela iniciativa e qualidade da avaliação!

Práticas de monitoramento e avaliação qualificadas como essa e que partem da avaliação dos impactos do funcionamento da rede nos próprios usuários são extremamente necessárias para o SUS!!!

Aprendi muito ao ler a experiencia de vcs! excelente trabalho!

Espero ve-los na Mostra!