Considerações e Construções Possíveis da atuação do Psicólogo em Unidade de Saúde em Porto Alegre(RS)

Considerações e Construções Possíveis da atuação do Psicólogo em Unidade de Saúde em Porto Alegre(RS)

O objetivo deste trabalho é compartilhar nossa experiência de atuação, enquanto psicólogas na Atenção Primária, explanando as atividades práticas que desenvolvemos, em Unidade de Saúde do Serviço de Saúde Comunitária, do Grupo Hospitalar Conceição. Destacamos o trabalho voltado à potência dos espaços coletivos e ao abandono dos modelos clínicos tradicionais, a fim de que se consiga dar conta da demanda e do contexto, a partir da ruptura com o clássico e da construção de novas possibilidades.

Dados da Experiência

Local da experiência: 
Porto Alegre (RS)
Âmbito da experiência: 
Eixo temático: 
Outras observações/campo livre: 

O intuito deste trabalho é compartilhar a experiência de atuação do psicólogo na Atenção Primária em Saúde (APS) – já que este profissional não está previsto no nível primário de atenção –, explanando as atividades práticas que desenvolvemos, enquanto psicólogas de Unidade de Saúde, do Serviço de Saúde Comunitária (SSC) do Grupo Hospitalar Conceição (GHC), Porto Alegre (RS). 
Considerando os princípios do SUS, o conceito ampliado de saúde da Organização Mundial de Saúde e a Reforma Psiquiátrica, faz-se necessário que a Saúde Mental (SM) e a APS se entrelacem e se potencializem (Diretrizes de Saúde Mental, 2008). Assim, a incorporação de ações de SM na APS, contribui para maior cobertura assistencial e potencial de reabilitação psicossocial. Assim, visa-se à integralidade no atendimento, considerando a abrangência, a acessibilidade e a longitudinalidade do cuidado: atribuições da APS (Cunha, 2004). Nesse sentido, é de competência da APS, no que tange à SM, construir de redes de apoio e de integração, priorizar estratégias coletivas, de grupos e evitar práticas que levem à psiquiatrização e à medicalização excessiva. 
O trabalho objetiva compartilhar a experiência de inserção dos psicólogos nas equipes de Saúde da Família no SSC do GHC, pois a psicologia não está prevista na APS. Além disso, os psicólogos também não estão preconizados nas equipes de matriciamento, compostas, minimamente, por um médico psiquiatra, dois técnicos de nível superior (psicólogo/enfermeiro/terapeuta ocupacional/assistente social, etc.), auxiliares de enfermagem.
Acreditamos que o psicólogo pode contribuir e desenvolver potente trabalho na atenção básica. Nesse sentido, Böing & Crepaldi (2010) consideram que possa haver falta de clareza em relação ao papel deste profissional em cada nível de atenção e, por parte dos próprios psicólogos, um desconhecimento de sua potencialidade de atuação na APS. Conforme Ramos e Pio (2010), o psicólogo pode avaliar criticamente a micropolítica dos processos de trabalho e das ações terapêuticas, e facilitar a compreensão dos processos de saúde/doença, atrelando-os ao contexto social: fatores de extrema relevância ao trabalho em APS.
Consideramos importante a articulação dos campos da APS e da SM, enquanto saúde como um todo, em função da atenção básica ser a principal via de acesso à saúde e ter como principais atribuições: longitudinalidade, continuidade e coordenação do cuidado, e estar próxima à comunidade. 
Salientamos que o campo da SM não é (e não deve ser) remetido somente à psicologia. Assim, a SM é compreendida como campo de atuação do psicólogo, mas não exclusivo deste. Apontamos que é importante considerar que é um campo em que sua especificidade pode exercer especial contribuição, principalmente em equipe multiprofissional. Aqui apontamos a perspectiva da “entre-disciplinaridade” de Ceccim (2004), na qual os profissionais em psicologia podem contribuir para a emergência do “entre”, promovendo espaços de ruptura, encontro com a alteridade e aprendizagem, tanto em relação aos usuários quanto à equipe, enquanto postura. A intercessão interdisciplinar, conforme o autor, vai ao encontro da perspectiva de matriciamento (Chiaverini et al., 2011), mas também pode abrir caminhos para a atuação da psicologia no nível primário de atenção. 
Os movimentos, aqui, se dariam no nível da micropolítica. Isso porque o trabalho interdisciplinar é atravessado pelas relações de saber-poder, jogos de verdade e seus respectivos discursos (Foucault, 2006). Através do tensionamento desse campo de forças, é possível produzir mudanças nos processos de subjetivação; tidos aqui a partir do conceito de dobra, conforme Silva (2004), a forma singular através da qual se produz a curvatura de determinado tipo de relação de forças em dado momento histórico. Nesse sentido, a presença do psicólogo na equipe de APS poderia contribuir no questionamento dos discursos e jogos de verdade presentes na equipe, abrindo portas para novas formas de subjetivação.
Quanto à prática, destacamos a lógica de trabalho voltada à potência dos espaços coletivos que desenvolvemos e coordenamos na unidade: Espaço Coletivo de Primeira Escuta em SM, Grupo de Adultos, Grupo de Pais e Responsáveis e Grupo de Crianças.
Buscamos, também, trabalhar na lógica de matriciamento com a equipe, através de interconsultas tanto em espaços formais, quanto informais: discussão de casos e consultas conjuntas com diferentes profissionais. Participamos de interconsultas com serviços especializados, pois se fazem necessárias discussões diante de casos mais complexos. Realizamos, também, atendimentos individuais, estabelecendo um acompanhamento psicológico em situações mais complexas, considerando a equidade.

Para exemplificar melhor a prática, apresento os espaços coletivos que contam com a coordenação da psicologia. Oferecemos quatro espaços coletivos em SM na Unidade: Espaço Coletivo de Primeira Escuta em Saúde Mental, Grupo de Adultos, Grupo de Pais e Responsáveis, Grupo de Crianças. Tais grupos, de frequência semanal, buscam a prevenção e a promoção em saúde e têm o objetivo comum de proporcionar um espaço de escuta e de expressão aos usuários com algum sofrimento psíquico, permitindo que os profissionais estabeleçam acompanhamento regular e continuado do processo terapêutico de cada participante. Destaca-se que a coordenação dos espaços é livre de planejamentos prévios e construídos com base no conteúdo trazido pelos participantes, tecendo questionamentos e relações a partir disso. Isso visa reforçar a autonomia e o protagonismo dos participantes, o que é extremamente relevante no trabalho com Saúde Mental na Atenção Primária em Saúde.

O Espaço Coletivo de Primeira Escuta em Saúde Mental não é configurado como de caráter terapêutico, mas sim, um dispositivo de acolhimento coletivo e de escuta, destinado à avaliação das situações e dos possíveis encaminhamentos de acordo com a singularidade de cada caso. Tem como principal objetivo organizar o acesso e o fluxo à saúde mental, avaliar a demanda, articular a rede de apoio, a rede de saúde mental e a intersetorialidade. No Grupo de Adultos, as principais questões trabalhadas, até então, têm sido as relações interpessoais e familiares, a dificuldade de lidar com a alteridade e com a diferença, a capacidade de autocuidado, entre outras. O Grupo de Pais e Responsáveis tem problematizado questões relativas à relação pais-filhos, ao desenvolvimento infantil, à dinâmica familiar e dificuldades escolares das crianças. O ingresso no Grupo de Crianças exige a participação de algum responsável pela criança no Grupo de Pais, com o objetivo de que a família ou cuidadores estejam, de alguma forma, implicados no processo terapêutico da criança. No Grupo de Crianças, busca-se trabalhar questões relativas ao desenvolvimento psíquico da criança em direção à construção da sua autonomia. A escolha das atividades lúdicas é feita pelas crianças, bem como, as combinações, regras e limites, alternando o lúdico com a via da palavra. A participação em tais grupos requer inscrição prévia, na recepção da USVF, para o Espaço Coletivo de Primeira Escuta em Saúde Mental, seja por demanda espontânea ou por encaminhamento de outros profissionais da Unidade.

Reitera-se que nossa prática psicológica na APS é pautada, principalmente, pela lógica coletiva em detrimento da ambulatorial. Nesse sentido, abandona-se o apego aos modelos clínicos tradicionais (Dimenstein, 2001), a fim de que se consiga dar conta da demanda e do contexto, a partir da ruptura com o clássico e da invenção de novas possibilidades.
Com esta escrita, pensamos que seria importante compartilhar essa vivência e atuação do trabalho do psicólogo na APS, buscando promover uma reflexão sobre movimentos que podem ser produzidos a partir da inserção do psicólogo como integrante de uma equipe de unidade de saúde na APS.

Referências: 
BÖING, E. & CREPALDI, M.A. O Psicólogo na Atenção Básica: uma Incursão pelas Políticas Públicas de Saúde Brasileiras. Psicologia: Ciência e Profissão, v. 30, n. 3, pp. 634-649, 2010.
CECCIM, R.B. Equipe de saúde: a perspectiva entre-disciplinar na produção de atos terapêuticos. In: PINHEIRO, R.; MATTOS, R.A. (Orgs.). Cuidado: as fronteiras da integralidade. Rio de Janeiro: Hucitec, 2004. p.261-80.
CHIAVERINI, D. H. [et al]. (Org.). Guia Prático de Matriciamento em Saúde Mental. Brasília, DF: Ministério da Saúde: Centro de Estudo e Pesquisa em Saúde Coletiva, 2011.
CUNHA, G. T. A construção da clínica ampliada na atenção básica. Campinas, 2004.
DIMENSTEIN, Magda. O Psicólogo e o Compromisso Social no Contexto da Saúde Coletiva. Psicologia em Estudo, Maringá, v. 6, n. 2, pp.57-63, 2001.
DIRETRIZES DA SAÚDE MENTAL. Secretaria de Estado da Saúde do Espírito Santo. 1ª edição. Vitória, 2008.
FOUCAULT, Michel. Ditos e Escritos V. Ética, sexualidade e política. 2. ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2006.
RAMOS, P. F. & PIO, D. A. M. Construção de um Projeto de Cuidado em Saúde Mental na Atenção Básica. Psicologia: Ciência e Profissão, v. 30, n. 1, pp. 212-223, 2010.
SILVA, Rosane N. A dobra deleuziana: políticas de subjetivação. Revista do Departamento de Psicologia (UFF), Niterói, v. 6, n. 1, pp. 55-75, 2004. 

Autores da experiência

NomeCategoria
Renata Palmerim SchornPsicólogo
Daniela Rosa CachapuzPsicólogo

Atores da experiência

NomeCategoria
Renata Palmerim SchornPsicólogo
Daniela Rosa CachapuzPsicólogo

Comentários

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Olá, Renata e Daniela. Prazer em conhecê-las!

Eu sou Irina e, junto com Fabiane e Luciano, sou curadora dos relatos da IV Mostra. É ótimo que tenham escrito e compartilhado a experiência de vocês conosco!

Estou escrevendo para saber se gostariam de participar deste processo de curadoria. Não é obrigatório! É a ideia e o convite para que possamos conversar aqui, na Comunidade de Práticas, sobre essa experiência de vocês, com o interesse de explorá-la mais, para que o relato possa mostrar todas as potencialidades dessa experiência. O que acham?

Fabiane e Luciano são meus parceiros neste processo e pode ser que eles também comentem e contribuam nessa nossa conversa.

Se aceitarem, eu preciso que vocês dêem um retorno em até 5 dias (corridos). Isto porque a participação nesse processo é limitada e estamos tentando dar o máximo de oportunidades aos participantes.

Ficamos no aguardo do retorno de vocês!

Beijos, Irina

Olá Irina!

Ficamos bastante lisonjeadas com o convite! Gostaríamos de saber mais sobre a curadoria, como ela ocorre, qual seu objetivo, período e sistematização. Mesmo sem saber muito como é a curadoria, ficamos, sim, interessadas!!!

Aguardamos retorno! Desde já, obrigada!

Abraço, Renata e Daniela.

Oi, meninas! Que bom que aceitaram o convite!

A ideia da curadoria é trocarmos ideias para que o relato fique ainda mais recheado de informações para aqueles que forem lê-lo/assisti-lo (dependendo da forma de apresentação).

Eu irei perguntar sobre algumas questões que para mim, leitora, forem interessante e eu queira saber mais. Entendemos que assim como eu, outras pessoas também teriam o mesmo interesse! Aí já deixamos um passo a frente para que os expectadores possam ir se adentrando e aprofundando ainda mais em sua experiência.

Assim, até dia 04/11, poderemos ir conversando para que você possa ir compondo o relato final. O que acham?

O intuito dos relatos apresentados na IV Mostra é de trocarmos expericências! Eu fiquei pensando se não seria interessante se vocês escolhessem uma ou duas ações dessas que vocês listaram (como os grupos, as interconsultas, o matriciamento...) e falassem mais de como foi, do público que acessou o serviço, dos resultados observados na população, etc.

Digo isso para que a experiência vá se tornando mais visível para nós, leitor@s, e também porque vocês se propõem a mostrar possibilidades e repertórios para a atuação do psicólogo na APS. Acho que ajuda a clarear e dar ideias aos demais psicólogos que tiverem interesse pelo relato de vocês!

Olá! 

Agradeço pela ajuda e atenção! O período de edição ficou um pouco apertado pra nós. Consegui complementar um pouco no corpo do texto, dando exemplos práticos da nossa atuação no que diz respeito aos grupos que coordenamos na Unidade, por exemplo.

Lamento não ter consegui me deter mais e com mais tempo no detalhamento do relato. Mesmo assim, obrigada mais uma vez!

Abraço, Renata.

Oi, Renata! Tranquilo!

Que bom que ao menos conseguiram dar uma complementada!

Agora é esperar a Mostra chegar, não é?

Até lá!

Beijos,

Irina

Olá Renata e Daniela,

Sou enfermeiro de uma equipe aqui de Campo Grande, MS e achei muito bom o relato de vocês sobre a atuação diferenciada do serviço de psicologia na APS. Nós contamos com o apoio do psicólogo do NASF para realizar as ações.

Um abraço

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O trabalho da equipe multiprofissional nas ESF tradicionais é um grande desafio, parabéns pelo relato que com certeza contribuirá com a prática de diversos profissionais e de gestores da area.

Abraços.

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Parabéns pelo relato.

Compartilhar avanços na consolidação do a poio matricial fortelece a atenção primária, compartilhar saberes é sempre uma maneira solidária de crescer.

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Concordo com a importância de pensarmos as funções do psicólogo na AB. Importante dar visibilidade a novas formas de trabalho. Parabéns!

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